A caridade, ou Tzedaká, é nada menos que o método pelo qual podemos controlar nosso próprio destino. Os kabalistas ensinam que ela pode até salvar uma pessoa da morte.
De onde vem essa ideia? Seria apenas uma cláusula de bom comportamento e moralidade para impedir que nos destruamos uns aos outros? Será que Deus se sentou à sua mesa lá no Céu e elaborou um conjunto de leis para que Seus filhos se comportassem bem e fossem gentis uns com os outros, porque queria um mundo bonito e pessoas que agissem direito nele? Por que, ao encarar nossa própria mortalidade, despertamos para a ideia da caridade? Isso faz parte de uma manipulação religiosa para que doemos antes de morrer, ou existe algo que nossa alma sabe e nosso corpo não?
"...o método pelo qual podemos controlar nosso próprio destino."
Há uma história bem-humorada que ilustra a complexidade de nossa relação com a caridade:
Um homem muito rico está desfrutando dos frutos de sua riqueza em seu enorme iate quando uma tempestade colossal o atinge e destrói a embarcação. Sozinho na escuridão, ele tem certeza de que vai morrer, até que uma voz interior o faz lembrar que, na escola dominical, aprendeu que a caridade pode salvar alguém da morte. Ele reúne suas forças e grita bem alto para Deus: "Meu dinheiro não significa nada para mim, eu só quero viver! Se você me salvar deste desastre, darei todo o meu dinheiro para a caridade." Nesse momento, o dia amanhece e ele avista terra ao longe. Com o corpo e a vontade fortalecidos pela visão, ele diz: "Deus, por favor, se você puder apenas me ajudar a chegar até a terra, darei metade da minha riqueza para a caridade." Pouco depois, e sem fazer muito esforço, o homem se vê a poucos quilômetros da praia. Agora animado com a possibilidade de que talvez consiga mesmo, ele diz, em voz calma e calculada: "Deus, se você garantir que eu chegue lá, darei 10 por cento da minha riqueza para a caridad.
Você sabe o quanto eu sou rico? 10 por cento é muito dinheiro!" E, antes de terminar de pronunciar as palavras, seus pés tocaram o fundo arenoso do oceano. Baixinho, o homem murmura: "Quer saber, Deus, obrigado mesmo assim, não preciso da sua ajuda. Eu consegui sozinho."
Hoje, se você pesquisar "caridade" no Google, encontrará muitos artigos sobre as formas como as pessoas racionalizam e teorizam o ato de dar. As estatísticas mostram que nos tornamos, sem dúvida, uma sociedade mais consciente das dificuldades enfrentadas pelo nosso próximo ao redor do mundo, e mesmo por quem está mais perto de nós, em grande parte por causa do poder das redes sociais de reduzir a distância e ampliar a compreensão entre nós. Ainda assim, a ideia de que dar caridade serve para beneficiar quem dá é, predominantemente, uma construção que se sente mais em casa nos textos religiosos. Seja no Judaísmo, no Cristianismo, no Budismo ou no Islamismo, as grandes tradições religiosas trazem alguma orientação sobre dar aos pobres e sobre como esse ato de gentileza traz um benefício maior a quem dá. Uma forma de caridade no Islamismo, o Zakat, pode trazer purificação a quem dá. Na perspectiva do Budismo, dar é um reconhecimento da interdependência da vida, e a generosidade é um dos atributos que favorecem o despertar espiritual.
Na religião Sikh, Guru Nanak afirma: "o lugar onde os humildes são cuidados, é somente lá que existem seu olhar misericordioso e sua graça". (HDS, Harvard Divinity School) E, como explica o Talmud: "Mais do que a pessoa rica faz pelo pobre, o pobre faz pela pessoa rica."
"Dar caridade ao pobre causa uma intensa unificação entre o Mundo Superior (Zeir Anpin) e o mundo físico (Malchut)."
A Kabbalah, a física da espiritualidade, oferece uma lógica metafísica sólida para este e outros preceitos espirituais, identificando a mecânica deste universo e como a Luz do Criador, a fonte da Vida, flui da dimensão invisível para esta, a dimensão vista e vivenciada da matéria.
O Zohar, o livro-fonte de onde se origina todo o conhecimento kabalístico, afirma que dar caridade ao pobre causa uma intensa unificação entre o Mundo Superior (Zeir Anpin) e o mundo físico (Malchut).
O Zohar explica:
Venha e veja: aprendemos onde está o homem pobre; ISTO É, MALCHUT, QUANDO NÃO ESTÁ UNIDA A ZEIR ANPIN. Qual é a razão disso? É que o homem pobre não tem nada de seu, exceto aquilo que recebe. A lua, MALCHUT, também não tem luz própria, exceto a que recebe do sol, ZEIR ANPIN.
Venha e veja: por que o homem pobre é considerado como um homem morto? Porque isso é provocado por aquele lugar, pois ele está em um lugar de morte, POIS MALCHUT É O SEGREDO DA ÁRVORE DO CONHECIMENTO DO BEM E DO MAL. SE A PESSOA É DIGNA, É DE BONDADE E VIDA; MAS, SE NÃO É, É DE MAL E MORTE. Por isso ele é chamado de "homem morto". Aquele que se compadece dele e lhe dá caridade FAZ com que a Árvore da Vida, CHAMADA "CARIDADE", repouse sobre A ÁRVORE DO CONHECIMENTO DO BEM E DO MAL, QUE É A ÁRVORE DA MORTE; como está escrito: "mas a justiça (lit. 'caridade') livra da morte" (Mishlei 10:2). Assim, como o homem faz abaixo, AO ALIVIAR O HOMEM POBRE, CHAMADO DE "HOMEM MORTO", exatamente assim ele faz acima, AO FAZER COM QUE A ÁRVORE DA VIDA REPOUSE SOBRE A ÁRVORE DA MORTE. Feliz é a porção daquele que é digno de fazer um Nome Sagrado acima, OU SEJA, DE UNI-LO A ZEIR ANPIN. Por essa razão, a caridade supera tudo. (Behukotai, 21-24)
"A caridade supera tudo" ~ O Zohar
Embora a Luz do Criador seja uma força de energia infinita, incompreensível para a mente finita, os atributos do Criador são conhecíveis e se manifestam neste mundo físico por meio de dez emanações, dez aspectos diferentes de energia chamados sefirot. Quando os Mundos Superiores (Zeir Anpin) se unem ao mundo físico (Malchut) através do viaduto de Yesod (que fica entre Malchut e as seis esferas superiores de Zeir Anpin), o mundo inteiro e tudo o que há nele é iluminado, trazendo bênçãos e sustento a esta dimensão física. A afirmação do Zohar de que "a caridade supera tudo" nos indica que a ação que mais poderosamente realiza essa união é a caridade (Tzedaká). Cada vez que damos caridade, uma torrente de Luz é derramada sobre este mundo físico.
As palavras Tzadik e Tzedaká compartilham a mesma raiz (Tzedek). Na porção bíblica de Gênesis 41, conhecemos José e seu sonho. José é o único personagem da Bíblia que recebe a designação de Tzadik, traduzida como aquele que é justo. E, no entanto, seria de imaginar que a Bíblia está cheia de pessoas "justas". Então por que ele é o único a receber essa designação? O Zohar explica que Tzadik está ligado à Sefirá de Yesod, e José é considerado o canal, ou carruagem, da Sefirá de Yesod. O termo carruagem significa que, por meio de suas ações, ele abriu o portão entre este mundo e o Mundo Superior para permitir que a energia de Zeir Anpin fosse revelada.
Por meio de seus sonhos, os das sete vacas gordas e das sete vacas magras, José pôde prever a chegada de uma grande fome. Ele tomou medidas enormes para preservar alimento suficiente para sustentar o mundo inteiro durante aquele tempo difícil. Como resultado, foi armazenado alimento suficiente para durar além daquele período de desespero. As ações de José não são um registro histórico, e sim uma alegoria que ilustra o modo como o sistema espiritual opera. José e a Sefirá de Yesod são descritos no Zohar como os sustentadores.
Quando damos Tzedaká, em essência, nos tornamos como José, o sustentador. O Rav Berg diz, porém, que a Tzedaká, o único preceito descrito como capaz de salvar alguém da morte, não é a mesma coisa que simplesmente dar. Como explica o Rav Berg: "O que torna a Tzedaká diferente do conceito de dar é que a Tzedaká é o dar a uma pessoa pobre. Ao dar a uma pessoa pobre, com a consciência de Tzedaká, é possível remover o decreto de morte."
A pista para desvendar esse mistério está na própria palavra. A última letra da palavra Tzedaká é a letra Hei. A letra Hei no final da palavra Tzedaká representa a Sefirá de Malchut. Para que o ato de dar seja considerado Tzedaká, para que quem dá seja um sustentador, no nível de Yesod, quem recebe precisa ser como Malchut, sem nada de seu, uma pessoa pobre.
"Ações físicas provocam efeitos espirituais."
Dessa forma, quando alguém cumpre o preceito de dar Tzedaká, assume o papel de sustentador, como José, abrindo o canal para que a Luz flua até Malchut. Isso traz abundância de Luz a este mundo, criando um efeito espiritual por meio de nossas ações físicas. Na estrutura da Kabbalah, ações físicas provocam efeitos espirituais. É como marionetes presas a fios, embora, neste caso, seja a marionete, e não o marionetista, quem puxa os fios. Ao mudar, ao nos mover e ao provocar mudanças aqui neste mundo, movemos o Mundo espiritual. É assim que os kabalistas explicam que nos tornamos a causa, ou a fonte, da Luz que é revelada.
Além disso, ao ser a causa dessa ação, quem dá se eleva ao nível de Yesod e deixa a dimensão onde a morte existe. Como explica o Rav Berg:
"Quando alguém assume a posição de sustentador, está se conectando a Yesod. Yesod é parte do universo sem falhas, onde não existem morte, doença nem nenhuma forma de caos. A Tzedaká é, portanto, uma ferramenta poderosa para se conectar aos outros Mundos. Ao dar Tzedaká, a pessoa se coloca no lugar do Sol. Como sabemos, o Sol é a fonte de toda a vida. Deus criou todas as pessoas para o benefício daqueles que não têm nada e não podem comprar o que precisam. E os pobres são a oportunidade para que as pessoas do mundo deem Tzedaká."
A partir disso, podemos ver que a ideia de que a caridade salva alguém da morte não é um jogo armado contra nós pelas instituições religiosas, e sim uma tecnologia antiga, enraizada nas escrituras de todas as religiões e decodificada pelo Zohar.
Deus não nos colocou aqui na Terra para sermos o efeito da dimensão onde a morte existe. Em vez disso, nos deu um método pelo qual podemos nos elevar das garras da morte. A Tzedaká é justamente o instrumento que nos permite fazer essa elevação e, ao fazê-la, assumir o controle de nossas vidas e de nossos destinos.